Olha só o preconceito...

 

Na edição de julho da revista semanal americana “The New Yorker”, seus editores estamparam na capa uma caricatura de Barack Obama e sua esposa a pretexto de mostrar como a direita nos EUA enxerga o candidato democrata. O desenho retrata Obama como um líder islâmico tocando punhos com sua mulher Michele, vestida de guerrilheira com uma metralhadora nas costas, ambientados no Salão Oval da Casa Branca, onde se pode ver um detalhe de um quadro de Osama Bin Laden na parede e uma bandeira dos EUA queimando no fogo de uma lareira. O porta-voz da campanha de Obama reagiu fortemente declarando que ‘muitos leitores vão encarar esta capa como ofensiva e de mau gosto. Nós também concordamos com isso”.

Pedro de Oliveira

É indiferente para o mundo e os EUA o resultado da disputa entre Obama e McCain?

 

Pedro de Oliveira

“A Guerra do Iraque deformou a política externa dos EUA, custou milhares de vidas humanas, prejudicou sua imagem e deixou o tesouro americano liquidado”, foi o tom do discurso de Barack Obama, o provável candidato à presidência dos Estados Unidos pelo Partido Democrata, em sua próxima convenção nacional. Obama se comprometeu, se eleito, a dar um fim à Guerra, e reorientar a abordagem dos grandes desafios mundiais sobre terrorismo, proliferação nuclear, mudanças climáticas e a dependência energética. Pouco tempo depois, o senador John McCain, seu provável oponente republicano, acusou Obama de perseguir uma estratégia de defensiva e de estrturar seus julgamentos sem levar em conta adequadamente os fatos.  “Esta Guerra nos diversiona de qualquer ameaça que enfrentamos e de muitas oportunidades que poderíamos aproveitar. A guerra diminuiu nossa segurança, nossa posição no mundo, nosso exército, nossa economia, e os recursos de que precisamos para enfrentar os desafios do século XXI. Por qualquer ângulo, nosso pensamento único focado no Iraque não é uma estratégia razoável para tornar a América segura.”

 Em artigo publicado no dia 14/7, no jornal The New York Times, sob o título “Meu plano para o Iraque”, o senador pelo Estado de Illinois, Barack Obama já havia deixado clara sua posição em relação a um dos principais temas da campanha para as eleições de novembro próximo nos Estados Unidos.

Em seu artigo, Obama se referia inicialmente ao apelo feito pelo primeiro ministro iraquiano, Nuri al-Maliki, para que se estabeleça um calendário para a remoção das tropas americanas do país. O senador argumentava que esta é uma ótima oportunidade para promover a saída dos batalhões de combate, que ele há tempos advoga, “para o sucesso a longo prazo no Iraque e para os interesses da segurança dos EUA”.

Em seguida, Obama procurou estabelecer as diferenças entre suas idéias para a região e o pensamento de seu adversário do Partido Republicano, o senador John McCain. Obama diz ter sido contra a guerra, ao contrário de McCain, desde antes de seu início e que iria terminá-la, se eleito presidente. Acreditava, escreveu Obama, que seria um grave erro enfrentar a Al-Qaeda e os Talibãs, invadindo um país que não apresentava nenhuma ameaça iminente e que não tinha nada a ver com o ataque de 11 de setembro às Torres Gêmeas em Nova York. Desde então, prosseguiu o senador, mais de 4 mil americanos morreram e os Estados Unidos gastaram até agora cerca de 1 trilhão de dólares. E as ameaças cresceram ao invés de diminuírem. Nesta altura do artigo, Obama fez uma referência ao “heroísmo” das tropas americanas que segundo ele teriam feito diminuir a violência no Iraque.

“Os mesmos fatores que me fizeram ser oposição à invasão ainda permanecem verdadeiros”, sentencia Obama em seu artigo, alinhando como aspectos negativos que se agravaram a pressão sobre os soldados americanos no campo de batalha, o fato da situação do Afeganistão ter se deteriorado e os gastos adicionais de 200 bilhões de dólares que não estavam no orçamento do país, e que não foram suficientes para se atingir os objetivos de estabilização política estabelecidos quando se iniciou a invasão. As boas notícias, agregou Obama, são de que os líderes iraquianos estão propondo um calendário de retirada das tropas americanas, enquanto que o responsável pelo treinamento dos soldados iraquianos, o general James Dubik, estima que essas tropas estarão treinadas e prontas para garantir a segurança em 2009.

 “A estratégia de permanecer no Iraque”, segundo Obama, “vai contra os interesses do povo iraquiano, do povo norte-americano e os interesses da segurança dos EUA. É por isso, que em meu primeiro dia de governo, daria uma nova missão aos militares no Iraque: terminar a guerra.” Mais adiante Obama promete não manter soldados, recursos e sua política externa reféns de um desejo de financiar bases permanentes no Iraque. O senador Obama encerra seu texto com a frase “está na hora de encerrar esta guerra”.

Todo este esforço de campanha pode ter sido desencadeado pelas recentes pesquisas nacionais publicadas pela revista Newsweek e pelo instituto Gallup. O candidato democrata à presidência dos Estados Unidos, Barack Obama, perdeu a vantagem de 15 pontos sobre o rival republicano, John McCain. Segundo recente pesquisa da revista Newsweek, que há menos de um mês mostrou o senador de Illinois à frente nas pesquisas, assegura que a diferença entre ambos caiu para apenas três pontos: 44% dos eleitores apóiam Obama, enquanto 41% respalda McCain.

 Outras recentes pesquisas mostram a redução da diferença entre o democrata e o republicano. Segundo a Gallup, que faz um acompanhamento diário, no sábado a liderança de Obama estava em 46% contra 43% de McCain. A diferença é insignificante do ponto de vista estatístico. Quinze por cento dos eleitores ainda estão indecisos. Perguntado, em entrevista recente, se os Estados Unidos são um país com um povo democrático e uma elite autoritária, o embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, do Itamaraty, respondeu: “O povo americano é democrático, como comprovam seus 232 anos de democracia e seus renovados esforços para aperfeiçoá-la, como foram a Guerra Civil para abolir a escravidão, a legislação dos direitos sociais, hoje ameaçados, a oposição popular à Guerra do Vietnã, a necessária reforma do sistema eleitoral, às vezes falho, e o aumento da participação popular na escolha dos candidatos com a indicação de um afro-descendente para presidente. As elites tendem a se comportar de forma imperial em suas relações com os demais Estados, devido à sua crença na perfeição suprema dos sistemas político, econômico e social americano. Isto por vezes lhes causa grandes decepções e surpresas. É preciso reformar, democratizar o sistema político internacional, defender e lutar pelos princípios das Nações Unidas, fundada pelos Estados Unidos, onde quer e por quem quer que estejam sendo violados: não intervenção, autodeterminação, respeito à integridade territorial, solução pacífica de controvérsias, igualdade soberana dos Estados.”.

 

Murdoch X Journal: “É o capitalismo, idiota!”

por Pedro de Oliveira*

 

 

Finalmente consumou-se a compra do grupo Dow Jones, proprietário do Wall Street Journal, pelo magnata da mídia Rupert Murdoch. A oferta de mais de US$ 5 bilhões dobrou a espinha da família Bancroft, controladora da Dow Jones. Vários editoriais logo em seguida ao fato choraram lágrimas de crocodilo, a começar pelo New York Times, nos Estados Unidos, até o vetusto O Estado de S.Paulo, no Brasil.

 

Como disse o marqueteiro do ex-presidente Bill Clinton, James Carville, a respeito da eleição para a presidência dos EUA em 1992, quando descobriu que o mau desempenho da economia teria peso fundamental no processo eleitoral - “é a economia, idiota!” - poderíamos dizer agora parafraseando Carville, “é o capitalismo, idiota!”, a respeito da vitória conquistada por Murdoch ao se tornar dono do maior império de mídia hoje no mundo. São 175 jornais espalhados em vários continentes, sendo os mais importantes o The Times e o tablóide The Sun, na Inglaterra e o New York Post e agora o Wall Street Journal, nos Estados Unidos.

 

Os planos de Murdoch não são modestos. Em outubro deverá lançar um canal de notícias econômicas – o Fox Business Network – que tentará rivalizar com a Bloomberg e a CNBC, da NBC Universal. Claro que com a compra do Journal, como é chamado o Wall Street Journal nos meios econômicos, o sistema de comunicação de Murdoch ganha credibilidade e conteúdo para enfentar a concorrência. Além disso, o magnata prepara seu ataque ao próprio New York Times.

 

No processo de convencimento da família Bancroft entrou em cena um recurso que já havia sido utilizado por Murdoch quando comprou a jóia da coroa britânica, o The Times. Naquela ocasião, Murdoch prometeu constituir uma comissão para tentar impedir interferências “indevidas” do conglomerado News Corp na linha editorial do jornal. Toda essa mise en cène foi por água à baixo quando Murdoch resolveu despedir o principal editor do The Times, Harold Evans, que resistiu ao ataque do magnata à orientação editorial do jornal inglês. A mesma atitude foi tomada agora para a compra do WSJ. Foi formada uma comissão de cinco membros que vai “supervisionar” a independência editorial das operações de notícias da Dow Jones.

 

A questão é que o processo de monopolização do capital é inexorável no capitalismo. E os ícones do jornalismo capitalista hoje, O Wall Street Journal, de Murdoch e companhia, e o Financial Times, do grupo inglês Pearson, continuarão terçando armas em matéria de noticiário econômico, na disputa sem tréguas pela hegemonia da influência sobre a economia mundial. Enquanto isso Murdoch vai fortalecendo seu sistema mundial de comunicação que somente no ano de 2006 faturou US$ 4,2 bilhões com a divisão de jornais, US$ 1,1 bilhão com a de revistas, US$ 1,3 bilhão com a editora de livros Harper Collins, US$ 6,7 bilhões com a divisão de cinema, a 20th Century Fox, US$ 1,7 bilhão com as operações de internet, US$ 5,4 bilhões com a rede Fox de Televisão, US$ 3,6 bilhões com TV a cabo e US$ 2,8 bilhões com TV por satélite, a DirecTV e a BSkyB.

 

 

* Publicado no Portal Vermelho em 16 de agosto de 2007

McCain, lobo com pele de cordeiro
Por Pedro de Oliveira*


Em campanha pela indicação como candidato republicano à presidência dos EUA, o senador John McCain, 72 anos, havia dito que "as relações com os vizinhos do sul devem ser regidas pelo respeito mútuo, não por um desejo imperial ou por demagogia antiamericana". Disse ele ainda que "durante décadas, governos republicanos e democratas trataram a América Latina como um sócio menor e não como vizinhos; como um irmão mais novo, não como igual". E mais: "Vamos trabalhar para evitar que Venezuela e Bolívia tomem o mesmo caminho do fracasso para o qual Fidel levou Cuba. E vamos ampliar e fortalecer nossos laços com países importantes como Brasil, Peru e Chile", concluiu.

Mais recentemente, o senador já consagrado como o candidato por seu partido, chegou a elogiar a política de biocombustíveis defendido pelo Brasil. O chamado "herói de guerra" é ainda um dos críticos mais empedernidos contra Cuba e considera Fidel Castro "um dos mais brutais ditadores da Terra". Fidel, entretanto, já lhe deu resposta à altura, ao declarar em um de seus artigos que "McCain, mentiu sobre a tortura e morte de prisioneiros americanos por interrogadores cubanos durante a Guerra do Vietnã". A afirmação havia sido feita por John McCain em janeiro, durante campanha em Miami, centro de exilados anticastristas. Em editorial publicado na edição da última segunda-feira do jornal Granma, Fidel disse que a acusação "carece de mínima ética" e chamou as afirmações sobre este episódio da biografia do republicano, Faith of My Fathers (A fé de meus pais), de "alucinantes". Sobre a política de guerra infinita de George W. Bush, o senador sustenta: "3.958 americanos mortos na ocupação do Iraque? Vocês ainda não viram nada. A América não tem de se preocupar se vamos ficar no Iraque por mais 50, 100 ou 10 mil anos".

O jornal norte-americano The New York Times desta segunda feira (16) publicou artigo muito esclarecedor que revela como o pensamento estratégico de McCain foi concebido. O texto, sob o título – Raízes das atitudes de McCain em relação à guerra – e o subtítulo – Pontos de vista foram forjados numa prisão de Hanói – dá indicações muito úteis aos que ainda têm dúvidas sobre as idéias deste candidato republicano na atual campanha presidencial nos EUA. McCain escreveu em 1974 um ensaio que foi submetido à direção da Escola de Guerra e que nunca havia sido tornado público. Trata-se de um opúsculo de 40 páginas com uma avaliação do código militar de conduta na prisão e sobre por que alguns de seus colegas prisioneiros de guerra resolveram colaborar com os norte-vietnamitas. O então tenente McCain, da Marinha dos EUA, foi preso pelo exército vietnamita e ficou preso em Hanói durante cinco anos.

O texto de McCain somente foi divulgado depois de um pesquisador ter acionado a Lei de Liberdade de Informação dos EUA e foi cedido ao jornal por Matt Welch – autor da biografia sobre McCain -- que tenta lançar luzes sobre a experiência de vida do senador. Suas elucubrações incluem temas ligados à sua carreira, como o "hábito de fazer as pazes com os inimigos", além de outras opiniões de que o governo e o Exército deveriam se esforçar mais para convencer os eleitores e as tropas americanas sobre os efeitos negativos da experiência no Vietnã no atual debate que se trava em relação ao Iraque. "O principal fator para que um homem seja capaz de manter a credibilidade como prisioneiro de guerra é uma profunda confiança na justeza da política externa de sua Pátria". Agora, o candidato republicano frequentemente se refere aos nove meses que passou pela Escola de Guerra como o período em que cristalizou seu pensamento em relação aos conflitos internacionais, como a guerra do Iraque. Ele se referiu a esta fase como de aprendizagem e formação sobre os porquês e as formas do envolvimento americano no sudeste asiático.

McCain constata no documento divulgado que os prisioneiros americanos que colocavam em questão "a legalidade da guerra" eram os mais suscetíveis "a aceitar a propaganda comunista". Os soldados americanos capturados depois de 1968 provaram ser os mais permeáveis à pressão norte-vietnamita, concluiu ele, pois haviam sido submetidos à opiniões conflitantes que emergiram dos movimentos civis contra a guerra do Vietnã. Para dirimir estas dúvidas McCain recomendou que os militares deveriam ensinar os recrutas não apenas a lutar, mas também conscientizá-los das razões pela qual a política externa dos EUA combatia a expansão do comunismo no sudeste da Ásia. Mesmo assim, McCain alertava que aplicar um programa de ensino desta natureza poderia ser encarado como "brainwashing" (lavagem cerebral) ou "thought control" (controle do pensamento) e despertar desta forma muitas críticas.

De uma maneira ou de outra este texto é um esboço de sua autobiografia política, relembrando estórias da "resistência" que ele e seu co-autor, Mark Salter, iriam depois recontar em suas memórias publicadas em 1999. As teses de 1974, entretanto, também revelam emoções daqueles anos em que McCain foi prisioneiro de guerra, como uma profunda raiva daqueles que ele considerava "colaboradores", um desprezo pelas pessoas que o cumprimentavam por ter sido um prisioneiro de guerra e uma aguda impaciência com o governo norte-americano por ter claudicado em "explicar ao povo, jovens e velhos, sobre fatos elementares e básicos de sua política externa".

Ao ser perguntado pelo articulista do The New York Times, David D. Kirkpatrick, se ainda mantinha os mesmos pontos de vista revelados pelo documento escrito em 1974, McCain respondeu em mensagem por e-mail que ele ainda acredita que o movimento contra a guerra enfraqueceu a moral de certos prisioneiros. Assim como vários outros observadores da cena política americana consideram que as lembranças de McCain alimentam sua atual impaciência com o movimento que se espalha novamente nos EUA contra a guerra no Iraque.



* Publicado no portal Vermelho em 18 de junho de 2008
Portinari: 50 anos dos painéis Guerra e Paz, na ONU
Carlos Décimo e Pedro de Oliveira

O senador Inácio Arruda (PCdoB-CE) propôs ao Senado da República que o ano de 2007 seja considerado oficialmente o "Ano do Cinqüentenário dos painéis Guerra e Paz”, de Candido Portinari, instalados na sede da Organização das Nações Unidas - ONU, em 6 de setembro de 1957.(*)

(*) A primeira iniciativa de homenagear o pintor Candido Portinari coube aos ex-Deputados Paulo Delgado e Sigmaringa Seixas, autores do projeto em 2006, que acabou sendo arquivado em razão do encerramento da legislatura. Diante da importância da obra do pintor paulista para a humanidade, o senador Inácio Arruda tomou a iniciativa de apresentar esta proposição na Câmara Alta.

Para avaliar o papel que Portinari desempenhou em uma geração, o texto de justificativa que sustenta a comemoração remete-se às palavras do poeta Carlos Drummond de Andrade, em carta dirigida ao pintor por ocasião do sucesso de sua exposição em Paris, em 1946: "Foi em você que conseguimos a nossa expressão mais universal, e não apenas pela ressonância, mas pela natureza mesma de seu gênio criador, que ainda que permanecesse ignorado ou negado nos salvaria para o futuro".

Das mãos do artista brasileiro Candido Portinari, nasceram as imagens que denunciaram a violência e exaltaram o amor e o entendimento. A temática da Paz permeou toda a sua vida. Através de sua obra, Portinari lutou tenaz e corajosamente em favor da paz e contra todas as formas de injustiça

Esta luta foi travada não só com o pincel, mas também em sua militância política, registrada em incontáveis ações ao longo de toda a sua vida. Como exemplo desta determinação, em 1949, Portinari convidado a participar, em Nova Iorque, da Conferência Cultural e Científica para a Paz Mundial, teve seu visto de entrada negado pela Embaixada Americana. Impossibilitado de comparecer, Portinari enviou mensagem, reproduzida aqui em seu trecho principal:

"(...) A luta pela paz é uma decisiva e urgente tarefa. É uma campanha de esclarecimento e de alerta que exige determinação e coragem. Devemos organizar a luta pela Paz, ampliar cada vez mais a nossa frente anti-guerreira, trazendo para ela todos os homens de boa vontade, sem distinção de crenças ou de raças, para assim unidos os povos do mundo inteiro, não somente com palavras mas com ações, levarem até a vitória final a grande causa da Paz, da Cultura, do Progresso e da Fraternidade dos Povos (...)"

Já intoxicado pelo uso das tintas e, mesmo diante da ameaça à sua própria vida, Portinari não recuou, aceitando o desafio mortal e enfrentando o seu trabalho maior: os painéis Guerra e Paz, presente do Governo Brasileiro para a sede da ONU em Nova Iorque. Sua obra mais universal, e mais profunda também, em seu majestoso diálogo entre o trágico e o lírico, entre a fúria e a ternura, entre o drama e a poesia. E também o mais letal para ele, que em nove meses cobriu, pincelada a pincelada de tintas proibidas pelo médico, dois paredões de quatorze metros de altura e dez metros de frente.

Após 4 anos de estudos preparatórios, em 5 de janeiro de 1956, Portinari entrega os painéis Guerra e Paz para serem doados à ONU. Estes painéis, de 14m x 10m cada um, foram realizados a óleo sobre madeira compensada naval.

No dia 27 de fevereiro do mesmo ano, o Presidente da República na época, Juscelino Kubitschek, inaugurou a exposição dos painéis, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, despertando intensa curiosidade -- o próprio artista e seus auxiliares ainda não tinham tido oportunidade de ver o trabalho na sua íntegra, posto que, devido às grandes dimensões do mesmo, sua execução fez-se por segmentos, cada um medindo 2,20m x 5m.

Entre outros reconhecimentos por suas ações, Portinari recebeu, em 1950, a Medalha de Ouro da Paz, no II Congresso Mundial dos Partidários da Paz, em Varsóvia, na Polônia. Dois anos mais tarde, ele criou, para o Conselho Mundial da Paz, o cartaz "A Paz vence a Guerra".
O alarmante encontro mundial sobre o clima
Foi lançado em Paris, no último final de semana, o relatório do Painel sobre Mudança de Clima (IPCC), órgão criado pela ONU, que causou grande impacto nos meios científicos do mundo inteiro a partir de dados concretos apontados por cerca de 2.500 especialistas no assunto.


O documento constata que não há mais dúvidas de que a queima de combustíveis fósseis -- entre outras atividades ligadas à produção de energia e de mercadorias -- são as maiores responsáveis pelo fenômeno do aquecimento global. Um estudo publicado por Nicholas Stern, a pedido do governo britânico, prevê que “o PIB global deixará de aumentar em até 20% ao ano nos próximos dois séculos caso nada seja feito para impedir que a temperatura da atmosfera suba mais 2º C”.


“A temática do desenvolvimento aliado à preservação ambiental emerge como uma das principais questões a serem enfrentadas neste século XXI”, constatava o texto de capa da revista Princípios, dedicado ao problema ambiental do planeta. “Agredido por ações e métodos destrutivos, derivados de um sistema cuja essência é o lucro máximo, nosso belo planeta apresenta “ferimentos” por toda parte. O capitalismo contemporâneo fere a Terra não apenas com suas velhas guerras de pilhagem e com a miséria e a fome que espalha. A natureza, preciosa fonte de riquezas, é mutilada ano após ano por uma lógica de produção predatória cujos agentes políticos e econômicos pouco se importam com os efeitos danosos de sua prática”.


O Protocolo de Kyoto previa reduzir 5,2% da emissão de gases que provocam o aquecimento da Terra em decorrência do efeito estufa pelos países mais industrializados até 2012. Com a recusa dos EUA em assinar tal protocolo, como o maior poluidor do mundo, aquela perspectiva choca-se com a principal diretriz da Convenção das Nações Unidas sobre mudanças climáticas, acordada na Cúpula da Terra realizada no Rio de Janeiro em 1992. Neste conclave concluiu-se que a luta contra o aquecimento global só pode ter eficácia se este for enfrentado pelo conjunto dos países. Evidentemente, também na questão ambiental está presente o confronto objetivo que há entre os países centrais, imperialistas, e os países pobres e em desenvolvimento. E nesse tema, o choque vem à tona no exame do grau de responsabilidade dos países conforme seu histórico.


Da Cúpula da Terra Rio 92, passando pela Conferência das Partes, em 97, em Kyoto (Japão), à Conferência do Clima, ocorrida em 2005, em Montreal, Canadá, e agora no painel sobre mudança de clima promovido pela ONU, se verifica que os termos dos acordos firmados em defesa da preservação ambiental e do desenvolvimento sustentado são “bombardeados” pelas grandes potências – em particular os Estados Unidos. Os países em desenvolvimento, sobretudo os que têm à sua frente governos progressistas, lutam numa correlação de forças desigual contra o irracional modelo que está levando à mutilação o nosso planeta.


Dessa maneira, a bandeira da preservação ambiental e do desenvolvimento sustentado deve com destaque estar presente do programa do movimento transformador de nosso tempo. Em particular no Brasil – país com fabulosos recursos naturais, também alvo de exploração destrutiva e predatória – as forças progressistas precisam conceber e implementar um modelo de desenvolvimento que além de distribuir renda preserve o meio ambiente.

A internet vai acabar com os jornais?

O editor de um dos jornais mais importantes dos EUA, Arthur Sulzberger do The New York Times, declarou na semana passada (8/02) em entrevista ao jornal israelense Haaretz que não tem certeza se a edição diária do seu jornal continuará sendo impressa daqui a cinco anos. Acrescentou, em seguida, que não estava preocupado com o fato. “O fundamental”, segundo ele, “é se concentrar no melhor modo de operar a transição da folha impressa à Internet”. Este debate já está na pauta da mídia mundial há algum tempo.

por Pedro de Oliveira*



O alerta publicado pela Economist



Sulzberger, constata que “a Internet é um lugar maravilhoso e nesse terreno estamos à frente de todos”, contente com o aumento de leitores da edição online do New York Times que passou a registrar 1,5 milhão de acessos por dia, enquanto o número de assinantes da edição impressa é atualmente de 1,1 milhão. A empresa deverá decidir se deve ou não manter sua edição impressa nos próximos anos. Estes dados e esta perspectiva deram força à reportagem de capa publicada pela revista semanal inglesa The Economist em setembro de 2006, com a manchete “Quem matou o jornal diário?”, onde procura teorizar sobre o futuro dos jornais impressos.

Na reportagem de capa da revista, que pode ser considerada o órgão central do capital financeiro internacional, ao lado do The Wall Street Journal e do Financial Times, os editores da Economist defendem que hoje em dia, nos países chamados desenvolvidos, o jornal é uma espécie ameaçada, ou em extinção. O “negócio” de vender palavras aos leitores e vender leitores aos anunciantes, que é quem sustenta os jornais impressos no capitalismo, está decaindo.

O escritor Arthur Miller, segundo a revista, havia dito em 1961, que: “—Um bom jornal, suponho, é a nação falando consigo mesma”. Um década depois, dois repórteres do jornal americano The Washington Post derrubaram o Presidente Richard Nixon, numa série de artigos sobre o caso Watergate. Em última instância, os grandes jornais podem se tornar responsáveis pela estabilidade de governos e o desenvolvimento de grandes empresas, asseguram os editores da revista, indicando que um jornal respeitado estabelece a pauta para o conjunto da imprensa e para o resto das mídias.

De todas as “antigas” mídias, os jornais são os que têm mais a perder em relação à Internet. O levantamento feito pela revista inglesa constata que a circulação dos jornais têm caído por décadas na América do Norte, englobando os EUA e o Canadá, na Europa Ocidental, na América Latina, na Austrália e na Nova Zelândia (estão fora desta pesquisa grandes mercados consumidores de jornais, como a China, o Japão, a Índia entre outros). Jovens britânicos, entre 15 e 24 anos, afirmam que após o início do uso da Internet, dedicam 30% a menos de tempo lendo jornais impressos. Nos últimos anos a Internet tem acelerado este declínio. Os anunciantes seguem a mesma tendência dos leitores, pois a Internet tem condições de “provar” aos anunciantes de forma cabal que seus leitores estão efetivamente lendo os anúncios publicados na Web pelo registro de acessos.

Na Suíça e na Noruega, os jornais perderam 50% dos classificados para a Internet. Entre 1990 e 2004, segundo a Associação Americana de Jornais (NAA), o número de pessoas empregadas pela indústria de jornais na América do Norte caiu 18%. A Economist considera que nas próximas décadas, metade dos jornalões dos países mais ricos estarão fechando. Os empregos já estão rareando. Os jornais ainda não começaram a fechar suas portas, mas isto será apenas uma questão de tempo, como diz o editor do New York Times. Um livro sobre o assunto foi publicado com grande repercussão nos meios financeiros: “The Vanishing Newspaper” (ou “O desaparecimento dos Jornais”), onde Philip Meyer calcula que em 2043 será o momento em que os jornais desaparecerão na América. Em 2005, um grupo de proprietários da rede americana de jornais Knight Ridder, colocou um fim em 114 anos de história de vários diários americanos. O próprio New York Times vem sofrendo quedas constantes no valor de suas ações na Bolsa de Valores de Nova York, nos últimos 4 anos.



A reação dos jornais ao “ataque” da Internet



A Economist analisa que apesar de ter ignorado esta realidade durante anos a fio, os jornais estão se movimentando, procurando fazer algo para reagir. Com o objetivo de se refundar, muitos destes jornais estão revendo suas pautas com vistas a atrair jovens leitores, ampliando seus espaços para seções de lazer e comportamento, reduzindo o investimento em jornalismo sobre política, economia e notícias internacionais. Este tipo de reação já desperta a preocupação de intelectuais e de faculdades de jornalismo nos EUA diante da decadência do chamado “quarto poder”. Isso tudo poderia permitir uma impunidade maior do governo e das grandes empresas.

De qualquer forma, podemos dizer com base na história do desenvolvimento dos meios de comunicação que a queda do poder dos jornais não será tão perigosa quanto faz crer certo tipo de análise. A democracia de tipo capitalista sobreviveu à onda poderosa primeiramente do rádio, depois da televisão – e que efetivamente provocou queda na circulação de jornais desde a década de cinqüenta. E os jornais certamente sobreviverão ao declínio que está por vir como instrumentos de dominação de classe e ao contrário como instrumentos de conscientização dos oprimidos diante das classes dominantes. Uma das fontes importantes de metamorfose dos órgãos de imprensa escrita têm sido o investimento em jornalismo investigativo, que freqüentemente beneficiam os leitores.

A utilidade da imprensa vai muito além de ser um instrumento de investigação de abusos eventualmente cometidos por governos e grandes empresas, conclui a reportagem de capa da Economist. Serve especialmente de controladora das ações de governo, sempre a partir de um posto de vista de classe, colocando-as nos tribunais da opinião pública. A internet ampliou este tribunal, oferecendo instrumentos poderosos de controle público. Os portais de informações políticas – como o Vermelho que atualmente é o portal “.org” sobre política, economia e cultura mais acessado no Brasil – é um bom exemplo desta possibilidade. Além disso, portais como o Google News colocam à disposição dos internautas fontes de pesquisa de todo o mundo. Outros exemplos interessantes nos podem dar a dimensão do processo de globalização desta mídia: a página na Internet do jornal The Gardian, publicado na Inglaterra, tem metade de seus acessos a partir dos EUA. Uma grande onda do que poderíamos chamar de “jornalismo cidadão” e blogueiros também pressionam entidades governamentais e representantes no parlamento a prestarem contas de seus atos.

Um jornalismo vibrante, com reportagens que possam transformar os leitores em verdadeiras “testemunhas da história”, como propunha o pensador grego Heródoto em suas lições de reportagem recuperados pelo jornalista Kapuscinski (ver texto publicado no Vermelho) devem enfrentar o desafio de organizar reportagens mais aprofundadas, em oposição a meros comentários analíticos. A maioria dos Blogs operam a partir das cadeiras de seus protagonistas e não nas trincheiras onde os acontecimentos efetivamente se dão. Mas ainda estamos nos primórdios e novos modelos de jornalismo online florescerão, com a queda do jornalismo impresso.


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