
Na edição de julho da revista semanal americana “The New Yorker”, seus editores estamparam na capa uma caricatura de Barack Obama e sua esposa a pretexto de mostrar como a direita nos EUA enxerga o candidato democrata. O desenho retrata Obama como um líder islâmico tocando punhos com sua mulher Michele, vestida de guerrilheira com uma metralhadora nas costas, ambientados no Salão Oval da Casa Branca, onde se pode ver um detalhe de um quadro de Osama Bin Laden na parede e uma bandeira dos EUA queimando no fogo de uma lareira. O porta-voz da campanha de Obama reagiu fortemente declarando que ‘muitos leitores vão encarar esta capa como ofensiva e de mau gosto. Nós também concordamos com isso”.
Pedro de Oliveira
“A Guerra do Iraque deformou a política externa dos EUA, custou milhares de vidas humanas, prejudicou sua imagem e deixou o tesouro americano liquidado”, foi o tom do discurso de Barack Obama, o provável candidato à presidência dos Estados Unidos pelo Partido Democrata, em sua próxima convenção nacional. Obama se comprometeu, se eleito, a dar um fim à Guerra, e reorientar a abordagem dos grandes desafios mundiais sobre terrorismo, proliferação nuclear, mudanças climáticas e a dependência energética. Pouco tempo depois, o senador John McCain, seu provável oponente republicano, acusou Obama de perseguir uma estratégia de defensiva e de estrturar seus julgamentos sem levar em conta adequadamente os fatos. “Esta Guerra nos diversiona de qualquer ameaça que enfrentamos e de muitas oportunidades que poderíamos aproveitar. A guerra diminuiu nossa segurança, nossa posição no mundo, nosso exército, nossa economia, e os recursos de que precisamos para enfrentar os desafios do século XXI. Por qualquer ângulo, nosso pensamento único focado no Iraque não é uma estratégia razoável para tornar a América segura.”
Em artigo publicado no dia 14/7, no jornal The New York Times, sob o título “Meu plano para o Iraque”, o senador pelo Estado de Illinois, Barack Obama já havia deixado clara sua posição em relação a um dos principais temas da campanha para as eleições de novembro próximo nos Estados Unidos.
Em seu artigo, Obama se referia inicialmente ao apelo feito pelo primeiro ministro iraquiano, Nuri al-Maliki, para que se estabeleça um calendário para a remoção das tropas americanas do país. O senador argumentava que esta é uma ótima oportunidade para promover a saída dos batalhões de combate, que ele há tempos advoga, “para o sucesso a longo prazo no Iraque e para os interesses da segurança dos EUA”.
Em seguida, Obama procurou estabelecer as diferenças entre suas idéias para a região e o pensamento de seu adversário do Partido Republicano, o senador John McCain. Obama diz ter sido contra a guerra, ao contrário de McCain, desde antes de seu início e que iria terminá-la, se eleito presidente. Acreditava, escreveu Obama, que seria um grave erro enfrentar a Al-Qaeda e os Talibãs, invadindo um país que não apresentava nenhuma ameaça iminente e que não tinha nada a ver com o ataque de 11 de setembro às Torres Gêmeas
“Os mesmos fatores que me fizeram ser oposição à invasão ainda permanecem verdadeiros”, sentencia Obama em seu artigo, alinhando como aspectos negativos que se agravaram a pressão sobre os soldados americanos no campo de batalha, o fato da situação do Afeganistão ter se deteriorado e os gastos adicionais de 200 bilhões de dólares que não estavam no orçamento do país, e que não foram suficientes para se atingir os objetivos de estabilização política estabelecidos quando se iniciou a invasão. As boas notícias, agregou Obama, são de que os líderes iraquianos estão propondo um calendário de retirada das tropas americanas, enquanto que o responsável pelo treinamento dos soldados iraquianos, o general James Dubik, estima que essas tropas estarão treinadas e prontas para garantir a segurança em 2009.
“A estratégia de permanecer no Iraque”, segundo Obama, “vai contra os interesses do povo iraquiano, do povo norte-americano e os interesses da segurança dos EUA. É por isso, que em meu primeiro dia de governo, daria uma nova missão aos militares no Iraque: terminar a guerra.” Mais adiante Obama promete não manter soldados, recursos e sua política externa reféns de um desejo de financiar bases permanentes no Iraque. O senador Obama encerra seu texto com a frase “está na hora de encerrar esta guerra”.
Todo este esforço de campanha pode ter sido desencadeado pelas recentes pesquisas nacionais publicadas pela revista Newsweek e pelo instituto Gallup. O candidato democrata à presidência dos Estados Unidos, Barack Obama, perdeu a vantagem de 15 pontos sobre o rival republicano, John McCain. Segundo recente pesquisa da revista Newsweek, que há menos de um mês mostrou o senador de Illinois à frente nas pesquisas, assegura que a diferença entre ambos caiu para apenas três pontos: 44% dos eleitores apóiam Obama, enquanto 41% respalda McCain.
Outras recentes pesquisas mostram a redução da diferença entre o democrata e o republicano. Segundo a Gallup, que faz um acompanhamento diário, no sábado a liderança de Obama estava em 46% contra 43% de McCain. A diferença é insignificante do ponto de vista estatístico. Quinze por cento dos eleitores ainda estão indecisos. Perguntado, em entrevista recente, se os Estados Unidos são um país com um povo democrático e uma elite autoritária, o embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, do Itamaraty, respondeu: “O povo americano é democrático, como comprovam seus 232 anos de democracia e seus renovados esforços para aperfeiçoá-la, como foram a Guerra Civil para abolir a escravidão, a legislação dos direitos sociais, hoje ameaçados, a oposição popular à Guerra do Vietnã, a necessária reforma do sistema eleitoral, às vezes falho, e o aumento da participação popular na escolha dos candidatos com a indicação de um afro-descendente para presidente. As elites tendem a se comportar de forma imperial em suas relações com os demais Estados, devido à sua crença na perfeição suprema dos sistemas político, econômico e social americano. Isto por vezes lhes causa grandes decepções e surpresas. É preciso reformar, democratizar o sistema político internacional, defender e lutar pelos princípios das Nações Unidas, fundada pelos Estados Unidos, onde quer e por quem quer que estejam sendo violados: não intervenção, autodeterminação, respeito à integridade territorial, solução pacífica de controvérsias, igualdade soberana dos Estados.”.
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